A idealização inconsciente de nós e dos outros

Por AbrapePsicologiaComentários fechados

Autor: José Luís Morado

Para diversos autores, toda criança é doutrinada com conselhos sobre a importância de ser boa, santa, perfeita. Quando não agia assim, era sempre punida de uma maneira ou de outra. Talvez a pior punição fosse quando os pais retiravam o seu afeto ou ficavam com raiva da criança. Não é à toa que:
“Ser mau” esteve sempre associado a castigo e infelicidade
“Ser bom” associado a prêmio e felicidade.
Daí, ser “bom” e “perfeito” tornou-se uma absoluta exigência, uma questão de vida ou morte.
Todo individuo sempre soube que nunca foi tão bom e perfeito quanto o mundo esperava que fosse. Esta verdade teve de ser ocultada, tornando-se um segredo, cheia de culpas. Assim começa, na infância, a construção da idealização inconsciente de nós mesmos.
A idealização inconsciente pode assumir muitas formas. Ela nem sempre dita padrões de falsa perfeição facilmente reconhecidos. Na verdade dita padrões altamente morais, tornando ainda mais difícil questionar a sua validade.
Um exemplo:
“Mas não está certo querer ser sempre decente, amoroso, compreensivo, nunca irritado, nunca ter falhas e tentar chegar à perfeição? Não é isto o que é esperado de nós?”
No exemplo acima as palavras “sempre e nunca” trazem a idealização embutida. Em uma autoavaliação sincera, todos nós sabemos que isso não pode ser verdade, mas sem ter consciência, impomos a nós mesmos ou aos outros essa idealização. A não aceitação dessa dualidade entre bom e mal ou perfeição/imperfeição cria muitos conflitos internos e externos.
A palavra aceitar, neste contexto, não é sinônimo de acomodação passiva a uma situação. É sinônimo de reconhecer as coisas como elas são verdadeiramente.
Uma premissa em psicologia é que nada que não é reconhecido ou tornado consciente, pode ser transformado.
Existe um medo profundamente escondido no inconsciente que diz:
“Meu mundo virá abaixo se não viver de acordo com os padrões idealizados”.
Com este pensamento inconsciente, o indivíduo não consegue abrir mão da tirania interna, e esta não permite que se perceba a impossibilidade de ser tão perfeito quanto às exigências idealizadas por nós e reforçadas pelo sistema educacional, pela família e sociedade em que vivemos.
Um dos artifícios mais comuns quando temos algum insucesso na vida é projetar a culpa pelo fracasso no mundo externo, nos outros, ou na vida.
Muitas crises pessoais não precisariam existir se não fosse a tirania da idealização inconsciente de nós mesmos.
O desejo genuíno de melhorar a si mesmo levaria à aceitação da personalidade como ela está verdadeiramente agora. Dessa forma, qualquer descoberta acerca de onde se está em falta com relação aos seus ideais não nos levaria à depressão, ansiedade e culpa, mas pelo contrário, nos fortaleceria se não fosse o falso eu.
Um sentimento de derrota, frustração e compulsão, bem como culpa e vergonha, são as indicações mais evidentes de que a idealização de si mesmo está ativada. Essa idealização foi “construída inconscientemente” para sustentar a autoconfiança, a felicidade e o prazer supremo. Quanto mais forte a sua presença, tanto mais desvanece a genuína autoconfiança, felicidade e muitos outros atributos gratificantes, formando-se um círculo vicioso autoperpetuante, sintetizado na frase:
“Quanto menos satisfação mais forte a idealização de nós mesmos.”
Pierrakos afirma que os sentimentos do eu real funcionam em perfeição relativa àquilo que você é agora. Quanto mais investimos no eu idealizado mais afastados ficamos do eu real. E na exata proporção deste afastamento, enfraquecemos e empobrecemos a nós mesmos, por mais paradoxal que pareça.
Ao tentar responder sinceramente a questão: “Quem sou eu realmente?”, nosso “centro de vida” responderá e a intuição começará a funcionar em sua plena capacidade relativa ao que você é agora. Gradualmente nos tornamos mais espontâneos, livres de todas as compulsões, confiando em nossos sentimentos porque eles trarão uma oportunidade de amadurecer e crescer, simplesmente porque aprendemos com os acertos e erros.
Os sentimentos se tornarão pouco a pouco, confiáveis tanto quanto o seu poder de raciocínio e o seu intelecto.
Grande parte dos conflitos deixará de existir quando aceitarmos em nós mesmos a parte boa/harmoniosa e a parte má/desarmoniosa. Algumas frases que procuram sintetizar esse conceito:
“Nenhum processo de crescimento e síntese da personalidade é possível até que a sombra (bem/mal) seja adequadamente confrontada.” Jung
“A suprema libertação consiste em transcender e incluir os pares de opostos (bem/mal)” Ken Wilber
“O que não enfrentamos em nós, aparecerá como destino” Jung
O texto está focado em nossa idealização inconsciente. A idealização inconsciente do outro só pode diminuir na exata proporção que diminui a nossa. A frase a seguir sintetiza esta ideia:
“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda” Jung
Todo individuo que já andou até certo ponto em sua jornada de autodescoberta pode confirmar a frase acima de forma vivencial não apenas teórica.

Considerações Finais:
O texto acima tenta descrever uma das prisões invisíveis de uma maneira abrangente. Esses conceitos têm muitas maneiras de se expressar no contexto individual. Até certo ponto podemos reconhecer e fazer mudanças sozinhos, mas outras vezes necessitamos de ajuda para ir mais fundo no reconhecimento de como estamos aprisionados e como nos libertarmos.
Alguns autores alertam para o abismo inconsciente entre o saber e o agir. Podemos saber muito, mental e emocionalmente, mas agimos muito pouco.
Quando tomamos consciência da profunda diferença entre “saber um caminho” e “percorrer esse caminho” nos aproximamos da possibilidade de acelerar nossa jornada de autodescobertas, abrindo-nos para o aprendizado com os acertos e erros.
Quando já caminhamos até certo ponto, podemos confirmar o que os grandes sábios sempre disseram:
“Somos os criadores de nossa vida exatamente como ela é agora! Através das nossas ações ou omissões, conscientes e principalmente inconscientes.”
Tendo mais clareza desse poder criador (harmonioso e desarmonioso) podemos mudar muita coisa em nossas vidas, se assim acreditarmos profundamente.

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José Luís Morado
Psicólogo Clínico e Coah Pessoal